É preciso ser dois para fazer o amor (pelo menos dois) e é por isto que o coito, longe de abolir a solidão, a confirma. Os amantes o sabem. São os corpos que se tocam, que se amam, que gozam, que permanecem… Lucrécio o descreveu bem: “Essa fusão que se busca, às vezes frequentemente, mas que nunca se encontra, ou se crê encontrar para logo depois se perder.” Daí o fracasso, sempre; a tristeza, tão frequentemente. Eles queriam ser um só e ei-los mais dois do que nunca. “Da própria fonte dos prazeres - escreve magnificamente Lucrécio - surge não sei que amargor, que até nas flores sufoca o amante… Isso não prova nada contra o prazer, quando ele é puro, nada contra o amor, quando ele é verdadeiro, mas prova algo contra a fusão, que o prazer recusa exatamente quando acreditava alcançá-la.” Porque se vê novamente entregue a si mesmo, à sua solidão, à sua banalidade, à esse grande vazio do desejo nele desaparecido. Ou se escapa à tristeza, e se isso acontece, é pelo maravilhamento do prazer do amor, da gratidão, em suma, pelo encontro que supõe a dualidade, jamais pela fusão dos seres ou pela abolição das diferenças. Verdade do amor: mais vale fazê-lo do que sonhar. Dois amantes que gozam simultaneamente são dois prazeres diferentes, um misterioso ao outro, dois espasmos, duas solidões. O corpo sabe mais sobre o amor do que os poetas. Mentem-nos sobre o corpo. De que têm medo? De que querem se consolar? De si mesmos, desta grande loucura do desejo (ou de sua pequenez a posteriori?), desse animal neles, deste abismo tão depressa preenchido, dessa paz que de repente parece a morte… A solidão é nosso quinhão e esse quinhão é o corpo.
“Escute irmão: sou de índole fragmentada e dispersa. Quando não me engole a tragédia, me apaixono a todo instante: uma lembrança, um rosto, uma faixa de areia branca suavizando a visão de edifícios e quintais. A entrega, entretanto, jamais humanizou meus amores. Eu me apaixono pelas possibilidades, isto é, as nuanças, as entregas arrependidas, indecisas ou inconscientes, isso que promete negando ou nega prometendo, tudo isso me encanta e reclama.
Ora, frequentemente acontece que eu tome um ar de imparticipação e ausência. As criaturas costumam acusar em mim o frio, o impassível, o árido. Devo aceitar isso na extensão total de seus compromissos? Devo explicar que atrás do impassível eu me apodero das coisas com voluptuosidade, com paixão? E que, de certo modo, me comprometo e vou ao extremo de tudo quanto me convoca, criando para minha vida um sem-número de derrotas singulares? Olhe, irmão, o que me interessa nas coisas é o que elas poderiam ser. O que me atrai nas criaturas é a disponibilidade, essa linda e trágica espera incessante, esse constante vigiar das tentações, como se torcêssemos pela circunstância, pela pessoa, pelo demônio que viesse (que sempre parece vir) nos arrancar dos trilhos para as cambalhotas da vida. Você há de ter observado, meu velho, um rosto, um olhar disciplinado e intimidado por séculos de civilização burguesa, você há de ter notado que nesses rostos costuma brilhar de vez em quando um anseio esquisito, uma luz que é bem uma sede de pecado, de desconhecido, de desastre. Instantes em que se revela em nós o pagão – o selvagem, o homem que deseja perder a própria vida e não ganhar. Vinte séculos de cristianismo não extinguiram em nós o gosto ácido do desprendimento, o amor impensado pelas coisas do mundo: sol, frutos, fêmea subjugada sobre a relva. Bem, irmão, esses momentos são tudo pra mim.”
- Carta à Otto ou Um coração em agosto, de Paulo Mendes Campos